segunda-feira, 25 de junho de 2012

[Conto] Oportunidades - parte 1


Este conto é parte da coletânea do livro Arquivos Soturnos, de minha autoria. Será dividido em 3 partes.

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OPORTUNIDADES
Parte 1 


Era uma noite enevoada e chuvosa. Ele apressou o passo, cobrindo a cabeça com o gorro do blusão e olhou para o céu. A lua estava alta e enorme, fulgurante em seu clarão frio. Um carro passou do seu lado, levantando filetes de água. Ele continuava apressando o passo. Na sua cabeça, mil questões. Foi quando viu, em cima, no céu, algo que passou voando por ele, indo parar no poste à frente. Era uma figura esguia, negra, e ele não conseguiu olhar. Não conseguia, e nem queria. E nem se importava. Tinha problemas pessoais a resolver. Foi somente depois, muito depois, que se lembrou de ter visto aquele ser ali. Ali a figura ficou, como um abutre, olhando-o. E ele passou. 

Finalmente, a casa dela, ele pensou. Seus pés cansados não conseguiam subir a rampa que levava até ela. Estava frio, e a chuva caía forte, e ele sentiu que podia desmaiar. Olhou para trás, na procura pelo abutre que o seguira. Nada. A rua deserta. Ele alcançou o telefone no bolso, e discou o número da garota. Ela viu o número dele no visor de seu celular. A mãe na sala, com o roupão, fazia cara de desgosto. 
--- Mãe, eu vou falar com ele, tá?
--- Você arranjou foi um problema minha filha. Pobre coitada.
A filha fez bico, mas abriu a porta. Viu, perto da entrada, ele, Tibério. 
--- Oi, ahn... me desculpa, amor...
--- Olha Tibério... -- ela ia começar, mas estava muito frio, e ela decidiu convidá-lo para entrar. 
Ele sentou-se no sofá, perto da porta. Ela foi até outro sofá, longe dele. Os dois ficaram em silêncio, por uns momentos. Ele sentia vergonha da situação. Ela sentia vergonha dele.
--- Olha, Luana... eu... 
Ela fechou os olhos um segundo. E escutou o que ele dizia. Depois que ele falou o que queria, ela começou.
--- Tibério, não sei mais o que eu faço, tá? Acordar no meio da noite com uma ligação sua, dizendo que tem que me ver não é exatamente a coisa mais romântica do mundo mais. Minha mãe tá achando que você não tem mais jeito, e eu, francamente, to cansando de ter que entender certas coisas suas! 
--- Eu sei... eu sei que é difícil entender, mas você tem que perceber que eu...eu te amo. Quero ficar com você. 
--- Eu sei... mas é complicado... 
--- A vida é complicada Luana. Mas se você não se decidir, fica tudo mais complicado. A gente faz o nosso destino também. Já conversamos sobre isso. Eu gosto tanto de ti, vou te tratar tão bem. Porque nós... Não podemos ficar juntos? 
--- Não é assim. Não é simples assim.
--- Mas, então porque você não me diz por que não é tão simples? 
A garota, de seus 23 anos, ficou calada. 
--- Eu gosto muito de você, e mesmo assim... 
A garota continuou calada. 
--- Eu sei que você tem muita coisa pra resolver. Mas porque você não resolve? Já te conheço há tanto tempo. 
--- Eu sei, mas tenho que conversar... ver como eu resolvo isto... 
--- Porque esta indecisão toda? Porque não se jogar de cabeça na vida? A vida passa enquanto você está indecisa. Quando você olhar pra trás, já passaram dez, vinte anos. 
--- Eu sei... -- ela respondeu breve, depois, silenciou.
Ele passou a mão na cabeça.
--- Bom... está tarde, mesmo. Eu vou pra casa, mas amanhã, você sabe, que eu vou viajar. Eu vou iniciar uma vida de trabalho, na França, e eu gostaria que você viesse, iríamos juntos. Mas, você decide... ou melhor, nem decide... -- ele se levantou lentamente, e saiu pela porta, não sem antes olhar para a garota Luana, de quem havia gostado durante aqueles anos. Agora, depois de tanto tempo, ao olhar para ela, sentada em um sofá da sala, mastigando uma decisão feita de goma de mascar, por tanto tempo, ficou a se perguntar porque, afinal, sentira algo por ela. 

Sem conseguir responder, fechou a porta e saiu andando. Nestes dias, de decisões difíceis, de reencontros e assuntos inacabados, ele gostava de andar. Principalmente na chuva. 
No outro dia, arrumou as coisas, abraçou a família e seguiu para o aeroporto. As dificuldades normais. Muita gente nas ruas, engarrafamento. São Paulo era uma cidade grande, e ficava maior a cada dia, pensava ele. No saguão fez o check-in. Carregou sua maleta até uma lanchonete da área de alimentação. Pediu um café com um pedaço de bolo de chocolate. Ficou ali, enrolando. O café lhe desceu logo, mas o bolo ficava rodando em sua boca. Não estava com fome. Olhava para os lados, incessantemente, uma parte de si inconformada, esperando pela garota, uma parte instintiva de si, que já estava começando a lhe irritar. Ela não chegava. Viu uma criança passar com um balão. Ela olhou para ele. Era um menino de três anos, no máximo. Ofereceu o balão para Tibério. O menino correu, e Tibério ficou com o balão branco. O alarme do celular lhe avisou do horário do embarque. Ele pegou a maleta, e, levando o balão branco, sem saber por que, se dirigiu ao portão. 

*****

--- Poxa, me fala, quer dizer que ele fez isso?
--- Sim, ele era casado, você acredita nisso? 
--- Nossa Lu.Você está sem sorte ein? 
--- É... nem consigo acreditar. Mas foi divertido. Já estou começando a me divertir com isso. Quanto mais conheço os homens mais gosto do meu cachorro. --- Luana começou a rir, juntamente com sua amiga. Ela morava, já há alguns anos, na cidade de Toronto, com sua amiga Trish, saindo do trabalho. Havia alterado a cor do seu cabelo, agora avermelhado, além de estar um tanto quanto diferente, pela própria passagem do tempo. Estavam perto da “Perky´s Coffee House”, uma lanchonete em que gostavam de passar depois do expediente. Ficaram ali, conversando por um tempo. Nestas conversas, geralmente Trish reclamava dos colegas de trabalho.
--- Mas é um saco aquele cara! Eu queria dar um murro na cara dele. Ah, se eu pudesse!
Luana gargalhava dos problemas da amiga. As duas trabalhavam em uma agência de viagem que tinha mais oito funcionários. Mark era o rapaz de quem Trish reclamava.
--- Eu odeio ele!
--- Trish, sabe o que eu ouvi outro dia? Que o Mark gosta de você.
--- O que? De onde você tirou isso? Isso não é verdade!
--- Mas é!
Trish ficou um pouco titubeante, como estivesse ligando os pontos em sua cabeça.  
--- Será?
--- Acho que é sim, viu. 
--- Porque você não me contou antes? 
--- Eu fiquei sabendo ontem, e ontem você saiu mais cedo e só te encontrei em casa, mas você já estava dormindo quando eu cheguei.
--- Mas... o Mark? Eu sempre o achei um retardado! Quer dizer, antes não, eu o achava até meio bonitinho... 
Luana riu mais uma vez da amiga. Pediram dois capuccinos. Curtiram o fim de tarde e seguiram ambas até uma casa noturna. Encontraram mais colegas de trabalho e conhecidos. A noite estava boa para duas mulheres jovens e solteiras, e depois de alguns drinques, e algumas paqueras, elas deixaram o local, e se dirigiram para casa. Pegaram o metrô. 
--- Eu adoro aquele DJ! Lembra daquele show do Tisco, ano passado, aquele de quando eu fui pra Manhattan, lembra? 
--- Lembro, você trouxe até daqueles copos que brilham pra gente beber umas misturas legais. 
Elas riram e conversaram ainda sobre diversas urbanidades, até que o metrô parou na estação que estavam aguardando, e se dirigiram para a residência que compartilhavam. Assim que chegaram nesta, cada uma foi para seu quarto. Ainda se encontraram na cozinha, para tomar os remédios contra a ressaca certa do dia seguinte. Depois, finalmente, dormiram. E antes de dormir, Luana pensou um pouco na sua vida. Pensou na sua família, e lembrou-se de Tibério. Sentia-se um pouco solitária ali, naquela noite fria, quis lembrar daqueles que já demonstraram uma vontade de estar perto dela, e lembrou-se daquele rapaz. Como estaria ele? Fazia quanto tempo? Seis, talvez sete anos que o viu pela última vez? Talvez fosse bom mandar um alô, perguntar como ele estava? Mas como, nem tinha mais notícias dele. Queria tanto ter escolhido estar ao seu lado hoje. Porque, no passado, aquela escolha fora tão difícil? Se fosse hoje... 
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(Continua...)